Quinto módulo do Saneamento Ecológico do Sono é finalizado

Construção coletiva, envolvimento comunitário e melhoria da qualidade de vida fazem parte dessa iniciativa que foi desenvolvida na comunidade caiçara de Paraty

O Saneamento Ecológico da praia do Sono em Paraty (RJ) concluiu em janeiro de 2017 o quinto módulo da construção das fossas ecológicas (tanques de evapotranspiração e círculos de bananeiras). O primeiro módulo foi implantado na escola municipal e os outros quatro foram implantados em núcleos familiares da localidade. A iniciativa foi construída por uma equipe diversa composta por comunitários, pesquisadores, arquitetos e permacultores e conta com apoio do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), da Associação de Moradores da Comunidade Caiçara da Praia do Sono, da Fiocruz e da Funasa por meio do Observatório dos Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS).

A conclusão do quinto módulo finaliza mais uma etapa do Saneamento Ecológico do Sono. Na próxima etapa, está prevista a implantação de outros seis módulos em núcleos familiares do Sono. Um trabalho construído de maneira participativa entre comunitários, técnicos e demais apoiadores como forma de sistematizar de maneira sustentável o saneamento básico dessa comunidade.

“Foi um longo trabalho que envolveu diversas reuniões no Sono, na Fiocruz, no OTSS. E esperamos que isso se torne um legado, deixando as pessoas politizadas, autônomas para criar o saneamento que seja favorável a comunidade”, ressaltou Jadson dos Santos, liderança caiçara da comunidade e participante ativo de todo o processo do Saneamento Ecológico no Sono.

“A troca com a comunidade foi a parte mais importante de todo o processo. Durante o trabalho estabelecemos uma vivência diária fazendo com que as pessoas que estavam participando pudessem fazer junto e nos ver fazendo”, relata Tiago Ruprecht, arquiteto responsável pelo projeto. Segundo ele, o fato de ter estado diariamente na comunidade ajudou para estabelecer relações de confiança, colocando a mão na massa, e transmitindo saberes sobre a tecnologia do hiperadobe, da bioconstrução, falar sobre conceitos de permacultura, fatores importantes no processo de troca com os construtores.

 

Tecnologia que permanece - Hiperadobe, uma tecnologia que usa o próprio solo para construir as paredes do tanque
Tecnologia que permanece - Hiperadobe, uma tecnologia que usa o próprio solo para construir as paredes do tanque

 

Tecnologia que permanece

Os módulos que foram finalizados nos núcleos familiares trazem uma inovação em bioconstrução em relação ao projeto piloto construído na escola, pois foi utilizado o hiperadobe, uma tecnologia que usa o próprio solo para construir as paredes do tanque. Os construtores que trabalharam no projeto são caiçaras do Sono e isso faz com que o aprendizado e a transmissão dos conhecimentos sobre essa técnica de construção permaneça na comunidade.

“Hoje os construtores comunitários abriram MEIs (Microempreendimentos Individuais), e outros prestadores de serviços ampliaram a geração de renda trabalhando com o translado e alimentação das equipes do projeto”, destaca Jadson dos Santos.  A liderança pontua que todos os processos foram importantes pois estiveram diretamente ligados aos comunitários. “Esperamos que esse tipo de saneamento se torne regra dentro das comunidades no Brasil. Fico imaginando que isso possa se espalhar para outros locais com as mesmas necessidades, pois é o recurso público bem utilizado”, salienta.

“A tecnologia contribui consideravelmente para a melhoria da qualidade de vida do povo que vive na comunidade, porque os resíduos dos banheiros que receberam o saneamento não estão mais sendo jogados na natureza. O que iria para o rio vira alimento”, explica Ruprecht. O especialista também alerta a importância desse saneamento no combate a doenças e na geração de alimentos saudáveis por meio das fossas de evapotranspiração.

 

Construção de módulo do Saneamento Ecológico na praia do Sono
Construção de módulo do Saneamento Ecológico na praia do Sono

 

“Estamos usando matéria prima da natureza mesmo e as famílias que receberam as fossas sempre comemoram. Todos os beneficiados agradecem muito e nós vemos que se trata, sobretudo, de mais uma forma de ajudar aqueles que precisam. Com relação à natureza, se sabemos conservar e cuidar, há mais vida”, afirma Edson Alvarenga dos Santos, construtor comunitário que trabalhou no projeto.

A transmissão de saberes e a troca diária com a comunidade fez com que todos compreendessem a possibilidade desta tecnologia ser replicada em outras residências do Sono. “Eu acredito que a tecnologia será replicada, e inclusive já temos relatos de dois trabalhadores que estão construindo suas casas e estão utilizando esse tipo de construção”, conta Tiago Ruprecht.

 

Os construtores que trabalharam no projeto são caiçaras do Sono e isso faz com que o aprendizado e a transmissão dos conhecimentos sobre essa técnica de construção permaneça na comunidade

Construtores que trabalharam no projeto são caiçaras do Sono. O aprendizado e transmissão dos conhecimentos desta técnica de construção permanece na comunidade.

 

Saneamento Ecológico e Turismo de Base Comunitária (TBC)

“Há pessoas de outros estados, países e até mesmo das universidades vindo conhecer, visitar os comunitários e os técnicos para ver de perto a nossa experiência”, diz Jadson dos Santos. “Hoje o saneamento ecológico do Sono faz parte do nosso roteiro de TBC. Quando iríamos imaginar que uma fossa se tornaria o carro chefe do Turismo de Base Comunitária? Isso acontece porque estamos cuidando da saúde da comunidade, fazendo a coisa da maneira correta”, completa.

“Esse tipo de obra é interessante porque temos o material aqui na comunidade, não precisa comprar e deve ser feito cada vez mais porque a comunidade precisa, por conta do rio e da cachoeira”, conta Reginaldo dos Santos Araújo, um dos construtores que participou de todo o processo no Sono. Segundo ele, o aprendizado ficou e eles enxergam a possibilidade de continuar construindo dessa maneira. “A gente vai aprendendo, economiza, e pode fazer outras vezes. Quando as crianças ou turistas chegam, a gente vai explicando e eles compreendem e gostam do que está sendo feito. Já explicamos pra muita gente”, finaliza.

O projeto do Saneamento Ecológico do OTSS concluiu o quarto módulo nos núcleos familiares, finalizando a segunda fase do projeto. Neste momento, o OTSS está se preparando para iniciar e finalizar em 2017 a terceira e última fase, na qual está prevista a construção de mais seis módulos em núcleos familiares. A tecnologia e o trabalho desenvolvido de maneira participativa pretende continuar o fomento desses saberes em outras comunidades por meio ações junto aos órgãos públicos e uma rede de parceiros, fomentando o envolvimento e o empoderamento das comunidades, ao mesmo tempo que promove saúde, bem-estar e preservação ambiental.

 

 

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