Caiçaras, indígenas e quilombolas se reúnem em Trindade para discutir conceitos e práticas de TBC

A Partilha faz parte das ações em parceria com o OTSS que fomentam a criação de uma Rede de turismo protagonizada pelas comunidades tradicionais da região. 

Na comunidade caiçara da Trindade em Paraty (RJ), local de conflitos históricos e luta pela permanência do povo caiçara em seu território, foi realizada no dia 29 de setembro a Partilha “Costurando Redes – das práticas aos princípios de Turismo de Base Comunitária”, na sede da Associação de Moradores da Trindade (Amot). O evento faz parte da estratégia para criação coletiva de uma rede entre as comunidades tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba e teve como objetivo aprofundar conceitos, estabelecer princípios e identificar ações que permitam consolidar uma a rede de TBC na região.

Estiveram presentes caiçaras, indígenas e quilombolas dos três municípios, parceiros,  colaboradores do FCT e do OTSS. Na ocasião, também contaram com a participação da parceira e professora Tereza Mendonça, do Departamento de Administração e Turismo do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ que apresentou experiências de TBC em outros estados e regiões do país e da América Latina. A diversidade de experiências apresentadas pela professora estimularam a reflexão sobre as características que permitem definir as iniciativas em turismo realizadas pelos presentes como TBC. 

“O TBC é mais uma forma das comunidades serem protagonistas de suas próprias vidas e o turismo por sua capacidade e potencial é um caminho”, pontua Augusto Santiago, colaborador do OTSS. Segundo ele, esses encontros têm como finalidade discutir pontos e ideias que  cada pessoa presente acredita e não abre mão para garantir que o turismo seja mesmo de base comunitária. 

“No Brasil, o movimento de TBC tem seus primeiros registros na década de 90 e na América latina na década de 80”, disse Tereza Mendonca. A professora pontou também que essa forma de turismo em sua origem no continente latino-americano está, em sua maioria, ligado a grupos indígenas. Hoje em nosso país há grande diversidade de comunidades envolvidas, gerando também diversidade nas práticas do turismo de base comunitária. 

 

Caiçaras, indígenas e quilombolas se reúnem em Trindade para discutir conceitos e práticas de TBC
Caiçaras, indígenas e quilombolas se reúnem em Trindade para discutir conceitos e práticas de TBC

 

 

Costurando redes e fortalecendo a luta

A Partilha teve início com uma dinâmica em que após se apresentar cada pessoa passava adiante a palavra e um fio de barbante tecendo uma rede. A brincadeira foi utilizada como metáfora de uma teia, representando a união e o fortalecimento dos povos e comunidades tradicionais que buscam fortalecer o trabalho pelo território. “Luta, resistência, valorização da nossa cultura. Esse é o sentido do Fórum. Iremos fazer dez anos de FCT e Falar de Angra, Paraty e Ubatuba, é falar de uma região que está unida e que convive, construindo essa rede”, destacou Vagner Nascimento, quilombola do Campinho, coordenador do FCT e colaborador do OTSS. 

Cada comunidade apresentou suas experiências de TBC e os comunitários pontuaram o que precisa ser resgatado, valorizado, aprendido ou desenvolvido para que o turismo seja de fato planejado e gerido pelas comunidades. Teresa Mendonça, pesquisadora presente defendeu, sobretudo, a ideia que a diversidade de propostas, ideias, conceitos e práticas são  fundamentais para que haja também o respeito pela diversidade nas ações do TBC em cada local. “Temos mania de colocar tudo em caixinhas, quando na verdade cada comunidade tem sua própria maneira de apresentar o turismo para os visitantes”, completa. 

TBC fomenta a cultura dos povos e comunidades tradicionais

“Eu comecei a trabalhar com turismo por gostar da área cultural, da religião e da língua guarani”, disse Lucas Xunu, liderança guarani mbya da aldeia de Bracuí em Angra dos Reis. Ele conta que eu trabalho teve início ao falar sobre a própria história com as crianças da aldeia. “Por meio de um projeto junto com o Ministério da Cultura (MinC) começamos a pensar no turismo. Hoje temos um roteiro, fizemos cursos e discussões (, sobre como fazer a recepção de grupos grandes e pequenos”. 

“Eu sempre falo que até para preservar a nossa cultura e a língua a gente precisa se relacionar com o homem branco. Porque cada vez que alguém vai até lá para comprar artesanato, ver as apresentações culturais é um passo a mais que a gente dá e nos envolvemos cada vez mais”, conta a liderança. Segundo ele, ao mesmo tempo em que os grupos culturais cantam, cada musica fala da historia do povo Guarani e isso ajuda a fortalecer o conhecimento dos que participam sobre sua própria história. 

 

Caiçaras, indígenas e quilombolas se reúnem em Trindade para discutir conceitos e práticas de TBC

Caiçaras, indígenas e quilombolas se reúnem em Trindade para discutir conceitos e práticas de TBC

 

“O TBC não é diferente da agroecologia, da educação diferenciada e de todas as bandeiras que a gente carrega, é instrumento de luta”, aponta Ronaldo dos Santos, do quilombo do Campinho. O líder quilombola destaca também que o que é de base comunitária não é sinônimo de ser barato, sobretudo por se tratar de produtos exclusivos, com pouca demanda. “Estamos aqui pra fortalecer o que é de base comunitária, o que preserva a memória de comunidades inteiras”, completa. 

“A comunidade Trindade é um lugar em que o Parque Estadual quer fazer  as chamadas PPP (Parceria Público Privado) e temos que lutar muito para enfrentar”, alerta Vagner do Nascimento. A liderança afirma que o empoderamento da comunidade é muito importante para fortalecer a luta contra medidas e o TBC neste sentido se coloca como mais uma ferramenta. 

Na comunidade da Trindade, também têm um roteiro de TBC e promove aos visitantes uma experiência singular relacionada ao modo de vida tradicional caiçara. Passando por conversas com mestres pescadores e canoeiros, práticas de pesca, “costura de redes” e conhecendo as belezas naturais do lugar e a culinária que encanta. 

“Um diferencial  aqui em Trindade, é que mesmo sendo um turismo de massa, as pousadas, os campings, os restaurantes são da comunidade, os pescados são todos pescados aqui”, conta Robson, caiçara da comunidade. “Há algum tempo começamos a falar do TBC e cada vez mais  estamos resgatando a pesca, a contação de histórias e o artesanato. Hoje eu acredito que quem faz o TBC  são os comunitários que exercem as atividades e são parte do roteiro”, finaliza.  O encontro fez parte do caminho percorrido pelos comunitários dos três municípios para a consolidação de uma Rede que articule as atividades de TBC na região.  Alinhar experiências que deram certo, trocar saberes sobre roteiros, divulgar, comercializar e fazer com que o turismo caminhe junto com protagonismo das comunidades tradicionais fortalecendo a luta pelo território é o objetivo deste trabalho.  

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